Cartas de Cassius - 2 - Alexandria

27/04/2012 22:19

Se um dia você navegar, aceite este conselho: nunca confie em tudo o que você possui em terra à bordo de um navio. Deixe seus pertences em casa, e leve apenas o essencial. Era isto que passava em minha mente enquanto lia novamente a carta de Julianus, o apóstata. Apesar de seus problemas com os excessos decadentes dos imperadores cristãos de sua juventude, a tentativa de reestabelecer os velhos rituais pagãos quando assumiu o governo e comercializar documentos proibidos com feiticeiros egípcios chegou a um extremo inaceitável. Sua carta relatava a aquisição de certos papiros antigos, que nunca chegaram ao império. Pois quase 10 anos depois da morte de Julianus, o governo encontra esta carta entre seus documentos, e me envia a Alexandria com a missão de retornar com tais papiros ao império, não revelando as razões para tal disparate. E quando vejo tantos judeus neste mesmo navio, com sua mania de levar bagagens infindáveis cheias de bugingangas para o mercado do Egito, sinto certa piedade em relação a sua ignorância. Eras depois de seu êxodo, eis que a maior comunidade de judeus atual do mundo se encontra novamente na cidade das maravilhas do Egito, e eles voltam aventurando-se pelo mar para acumular riquezas no lugar de onde Yahweh, seu Deus, os retirou. Talvez Yahweh planejasse trazê-los de volta a estas terras, pois tivemos uma viagem completamente tranquila.

Era fim de tarde quando pude enxergar o famoso farol de Alexandria, e quando olhei para a cidade ao redor, percebi o motivo de sua fama pelas parábolas romanas: Uma cidade esplendorosa, movimentada, enorme e aparentemente intocada pelos cataclismas das guerras, com o farol triunfante iluminando a noite vindoura, alcançando distâncias grandes mar afora. Certamente este grande alcance luminoso do farol seria um motivo de estudos durante minha estadia na cidade.

Um chuvisco refrescante nos recebeu ao desembarcarmos na cidade, e logo fui me apresentar ao curator do comércio, que indicaria onde encontrar o mercador que possui os papiros os quais deveria recuperar. 

A chuva, no entanto, aumentou em fúria até parecer ser capaz de destruir tudo em seu caminho . O lamento dos ventos era como o choro de uma alma atormentada, e soava alto mesmo com as explosões contínuas dos trovões. Nesta situação, encontrava-me na mansão do curator do comércio, Patricius Lucinianus. Este sobrenome revela sua origem camponesa, porém é o atestado de que é um autêntico cidadão romano, e que não perdeu a oportunidade de enriquecer ao se aventurar em cidades distantes da grande mãe Roma. Seus questionamentos sobre o interesse romano em papiros antigos que aparentemente datam da época dos grandes magos egípcios começaram a me incomodar. O homem é um oportunista, e corre atrás lucros como peixes em cativeiro, que se amontoam e lutam desesperadamente pelo alimento jogado na superfície. 

Haviam algumas outras pessoas no salão de jantar: O ilustre matemático Theon Alexandricus, que conversava com uma jovem que provavelmente estava no início de seus 20 anos, a família de Lucinianus, alguns vendedores que estavam em reunião com o curator e alguns outros convidados que pacientemente aguardavam alguma coisa. Não tardou para que eu descobrisse do que se tratava. Theon se sentou em meio aos convidados, e a moça começou a discorrer sobre a teoria geocêntria de Claudius Ptolemaeus. Esta era Hypatia de Alexandria.